Paz e entendimento por meio de viagens e hospedagem

Paz e entendimento por meio de viagens e hospedagem

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

3° Encontro Internacional do Servas Youth, em Istambul (De 19 a 26 de julho de 2008)

Alguns dos participantes, da esq. à dir.: Sally, da Malásia, Orly, de Israel; Mafê, do Brasil; Ahmed, do Egito; Pablo, da Argentina; e Gal, à frente, de Israel.



-- Notícias do front 1/21-07-2008



Já passa da uma da manhã, e a cantoria segue solta à beira do lago da Universidade Sabanci, a meia hora de Istambul, Turquia. A lua cheia, que começa delicadamente a dissolver-se, foi testemunha da afinação da maioria dos membros Servas presentes na sessão musical, conduzida pelo italiano Fabrizio, a venezuelana Margiari e a finlandesa Mina. Os dias do 3º Encontro Internacional do Servas Youth têm sido longos – o café da manhã começa às 8 horas e, geralmente, vamos dormir às 2 ou 3 da madrugada. Atmosfera pesada, atividades cansativas, palestras enfadonhas? Nada disso. E, depois das 23h, quando a música entra em cena – seja para dançar, seja para cantar –, o mundo parece pequeno para tanta animação. E para tantas nacionalidades. Não sei ao certo quanto somos, pois a cada dia chegam novos participantes. A conta deve girar em torno de 60 pessoas de várias idades e de vários países, todos jovens em espírito e disposição. Os cinco continentes estão representados.
Que lindo aprender com o pacifista indiano Subba Rao, mais conhecido como "Bhai Ji" (irmão mais velho), de 75 anos, que conduziu brilhantemente uma palestra sobre Gandhi, os princípios de paz, nosso compromisso com a mudança – que começa dentro de cada ser humano e pode se espalhar por todos os povos do planeta. Que lindo ver a israelense Orli conversando com o egípcio Ahmed, eles que estão tão próximos mas não se podem visitar por conta das diferenças todas e dos conflitos do Oriente Médio (ela vive em Jerusalém; ele, em Alexandria). Também é bonito ver a jovem indiana Maitree dançando com o polonês Janek, o indiano Rushak encantado pela turca Sem e Sally, da Malásia, simpaticíssima e esfuziante, fotografando o argentino Pablo Chufeni, coordenador do Servas Youth, em suas piruetas e caretas. No grupo das senhoras de coração juvenil, Diane, de Singapura, bate papo com a italiana Ana que, por sua vez, fala com a inglesa Margareth. Os pedacinhos do caminho da solidariedade se formam gradativamente. "Que bom estar aqui", diz a holandesa Carla.
Temos falado do Servas, temos falado de paz, temos trazido à tona nossa semelhança como seres humanos e nossas divergências também tão humanas. O programa, elaborado com carinho e dedicação pelo time turco, contempla palestras, espaços de discussão, atividades recreativas e filmes, além das sessões musicais. Hoje foi dia do documentário "Echoes Across the Divide", do australiano Adam Sebire, também membro Servas, sobre Nicosia, a cidade dividida entre gregos e turcos na ilha de Ciprus. Tocante, o longa-metragem nos fez explorar as questões relacionadas aos conflitos e as possibilidades de derrubar os muros que nos afastam do Outro. Pouco a pouco, vou lhes dando mais notícias. Agradeço ao Servas Bélgica-Luxemburgo pela possibilidade de estar aqui. É revigorante encontrar tantos semeadores de um novo mundo...




-- Notícias do front 2/26-07-2008


Me desculpem pelo atraso no envio desta segunda mensagem. Os dias foram bem agitados durante o encontro internacional em Istambul, que terminou sem lágrimas e sem velas, mas com fitas amarelas de esperança, no sábado 26. Perdoem também a falta de acentos, escrevo de um teclado turco, aqui no Chipre, para onde vim por pura curiosidade, seguindo o chamado de meu coração logo apos ter assistido ao documentário sobre o qual comentei na mensagem anterior. Deixei Istambul com lágrimas nos olhos de saudade -- nao so' da cidade que ja' me acolheu três vezes, mas principalmente de todas as pessoas lindas que conheci nos sete mágicos dias de encontro. Estou viajando por diferentes países do globo, durante sete meses, numa tentativa de compreender o mundo em que vivemos e os enroscos de nossa realidade. Minha opção por zonas de conflito ou de questões sociais e ambientais prementes foi consciente; meus olhos estão ávidos por explicações. E meu coração segue colhendo os pedaços de mim mesma, como humana e gente, pelos lugares todos, proporcionando-me uma indescritivel jornada interior. Assim, o encontro de Istambul foi um alento, um invento, um impulso e um fluxo. Ter conhecido pessoas incréveis, vindas de recantos tão diferentes, contudo todos com a mesma chama e grandes sonhos, me encheu de esperança e de fé. As conexões se criaram, projetos foram esboçados e agora cabe a nós, servianos, abraçarmos a causa da paz na prática, no aqui e no agora.

Assistimos emocionados a um curta-metragem no Youtube com uma entrevista realizada pelo Servas Japão com Bob Lutweiler, fundador da organização morto este ano. Entre outras coisas, Bob falava que nao podemos perder a essência do Servas, a construção da paz por meio da partilha entre anfitrioes e viajantes. Servas é mais que dois dias de hospedagem; trata-se de um instrumento poderoso para a compreensão do Outro, para a amizade verdadeira. So' nao lhes mando o link porque o youtube esta' proibido na Turquia, em virtude do uso mal-intencionado de vídeos contra Atatürk, o fundador da republica, por radicais islâmicos que querem que o país se torne um Estado religioso mulçumano. Alias, esta é uma das questões com as quais a Turquia lida atualmente, alem do problema com os curdos (voces souberam do atentado no domingo 'a noite?) e da posição quanto ao Chipre. Busquem no youtube Bob Lutweiler e "sjtomioka", o nick do rapaz que postou o vídeo. Muitas ideias brotaram no encontro, especialmente quanto 'a juventude. Falamos da promoção do Servas e da integração dos membros em cada país. O que nos atrai no Servas? Comentamos o SYLE e refletimos sobre tópicos relacionados aos jovens: o projeto Música pela Paz, a criação e manutenção de um website, a necessidade de voluntários engajados, a criação de espaços de interação. Falamos também de redes de solidariedade, como minha sugestão de criarmos uma lista de instituições humanitárias, ambientais ou sociais e ONGs, nas quais os membros locais estejam envolvidos, para oferecer aos viajantes que desejam se engajar como voluntários por um periodo. Porque, de novo, precisamos resgatar os princípios basilares do Servas: estudo, trabalho e viagem. Estamos esquecendo de que chega um momento em que é preciso dar um passo além. Bacana conhecer estrangeiros; com o CouchSurfing e o Hospitality Club isso também é possivel. Mas e daí? E então? E depois? E que mais?

Nossas noites 'a beira do lago foram cheias de poesia e afeto. Grandes amizades se firmaram, alguns romances começaram la' tambem. Na sexta 'a noite, na cerimônia de encerramento, tivemos lindas apresentações. O grupo indiano se apresentou, vestido a caráter, mostrando as danças tipicas de cada estado daquele formoso e encantador país. Magi, a venezuelana que esta' viajando pela Europa como parte de sua pesquisa humanitária, tomou seu "violão venezuelano" (o nome me escapou) e se pôs a cantar tal e qual Janis Joplin nos idos dos anos 60, emocionando as gentes todas. Quatro jovens turcos, liderados por Ozge, também nos proporcionaram momentos de pura música, deleite e poesia. Os egipcios mostraram sua dança tipica. E eu com meu amigo turco Jaki, amigo Servas de outros carnavais, entramos em cena como clowns para contar uma história de que a solidariedade é possivel mesmo com as diferenças todas. Tudo foi tão bonito...


-- por Maria Fernanda Vomero, Secretária de Paz
e representante brasileira no encontro





Parte do grupo reunido no centro de Istambul, durante um tour


Resumo do que se falou
Alguns dos temas que foram discutidos no encontro:

1. SYLE – Servas Youth Language Experience: Uma bem-sucedida experiência promovida pelo Servas Youth em distintos países. Depoimentos da venezuelana Magiari Diaz, que fez o programa na França, e da brasileira Maria Fernanda Vomero, que foi recebida pelos integrantes do México. (O Servas Brasil, por meio dos anfitriões de São Paulo, tem sido um dos mais ativos).

2. “PAZ PRÁTICA” – Servas & voluntariado: Termo introduzido pela inglesa Ann Greenhough, do Servas britânico, “paz prática” faz referência às formas concretas e cotidianas pelas quais viajantes e anfitriões Servas possam fomentar a paz em suas comunidades. A idéia é agregar à hospitalidade a possibilidade de envolvimento comunitário por meio do voluntariado. Assim, os anfitriões Servas podem oferecer a seus visitantes uma participação direta em causas que ambos considerem valiosas. Magiari contou sobre sua participação no PAFRAS (Positive Action for Refugees & Asylum Seekers), realizado em Leeds, na Inglaterra, com apoio de Ann.

3. REAVIVAR O ESPÍRITO SERVAS: Foi um consenso: infelizmente, os princípios de trabalho, estudo e viagens com os quais o Servas foi fundado estão se perdendo. O atrativo da mera hospedagem tem sido mais presente que os pilares propostos por Bob Lutweiler. Como sair desse marasmo em que o Servas se encontra?

4. COMO ATRAIR MAIS JOVENS? É fato que o Servas vem envelhecendo e tem encontrado dificuldade em atrair mais membros jovens, talvez por conta de algumas dificuldade que a própria estrutura da organização apresenta. Algumas sugestões para cativá-los:
* Digitalizar as listas e disponibilizar acesso seguro e confidenciar delas na Internet;
* Permitir que os jovens possam ser entrevistados em qualquer país, durante uma viagem, desde que venham recomendados por um membro ativo de Servas e sejam entrevistados por integrante local;
* Possibilitar que os jovens entrem na organização somente como viajantes e, se está dentro de suas possibilidades, como day host.
* Desenvolver atividades e reuniões a fim de estimular a participação da juventude.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Uma estreia inesquecível


A anfitriã Gabriela, de Perugia, entre Alva e Caio; à dir., os dois com o anfitrião Enrico, de Veneza, e o amigo brasileiro também chamado Enrico


O destino da primeira viagem de ALVANY MARIA DOS SANTOS SANTIAGO com o Servas foi a Itália. Che fortuna, tutti buona gente!

Conheci o Servas por meio de um amigo francês, quando planejava uma viagem para a Itália e a Espanha a fim de comemorar o aniversário do meu filho Caio, de 20 anos (graças a Deus, ele aceitou viajar comigo em vez de fazer outro mochilão com os colegas da USP no meu carro!). Minha mensagem solicitando informações foi logo respondida pelo Secretário Nacional, Roberto Borenstein. E, em junho de 2008, durante uma reunião dos membros de São Paulo, passei por uma entrevista e comecei a integrar a organização.

Depois de enviar vários e-mails aos membros italianos sem obter resposta, resolvi escrever para a coordenadora regional de Lazio, Vittoria Giardi, que me indicou duas anfitriãs. Liguei para Pina di Maio, que nos recebeu em Roma. Foi ótimo chegar a uma terra estranha e encontrar um rosto “amigo” nos esperando no metrô, além de poder contar com a sua hospitalidade e as boas conversas durante os jantares. Num deles encontramos Marcella, filha de Pina e fã incondicional de “Salvador da Bahia”, cidade que já visitou várias vezes e na qual alugou uma casa. Conhecemos Cicina, outra anfitriã Servas, com quem partilhamos uma deliciosa pizza. E também estivemos hospedados com a própria Vittoria por dois dias.

Foi surpreendente a acolhida que recebemos. Enquanto eu e Caio passávamos os dias empolgados com a magnificência de Roma, nossas novas amigas planejavam nossa viagem pela Itália ou nos preparavam uma deliciosa comida. E, sempre que podiam, nos davam carona.Depois de Roma, visitamos as cidades medievais de Perugia e Spoletto, e ficamos hospedados com Maria Gabriela, simpática anfitriã recomendada por Vittoria. Aprendi a fazer tortilla de cebola com ela! Em Veneza, foi a vez de Enrico Mancuso – indicado por Pina di Maio – nos hospedar. Que agradável estar com Enrico e seus amigos, além de experimentar Spritz (uma bebida muito forte para mim, que quase não bebo)! Depois, seguimos para Espanha, mas, apesar do empenho de Pina em localizar um anfitrião, nos hospedamos em hotel, como já havia acontecido em Florença.

Caio e eu ficamos impressionados com o carinho do Servas Itália. Foi gratificante conhecer o país tendo contato com as pessoas, a cultura e o modo de vida de lá. Para mim, o Servas se revelou uma ótima forma de fazer novos amigos e de viajar por meio do convívio com os moradores do local. Agora fico na expectativa de receber o primeiro hóspede em Petrolina (PE) & Juazeiro(BA)!

Alva, Pina Di Maio, Cicina, Vitoria e Caio provando as delícias da culinária italiana em Roma

Em Pinda, para celebrar os 60 anos do Servas

Um brinde ao Servas sexagenário!: Da esq. à dir., Luci, Andrea, Fabio, Marita, Mafê (agachada), Alice, Tom (à frente), Roberto, Wellington e Deca

Entre os dias 15 e 17 de janeiro de 2009, o encontro do Servas na cidade de Pindamonhangaba reuniu 11 servianos que, unidos basicamente pelo desejo de partilhar, marcaram mais um passo no processo de amadurecimento da organização no Brasil. Estiveram presentes Fábio e Marita Fonseca, os delicadíssimos anfitriões, Maria Fernanda Vomero, Roberto Borenstein, Débora Pinto, Maria Alice e Wellington Santos, Tom Tate, Luci Braga, Andréa Assis e Lílian Gelman. Esta foi também, oficialmente, uma das comemorações pelos 60 anos do Servas Internacional. Primeira atividade desta que vos escreve no Servas – recém-chegada, e com um verdadeiro olhar estrangeiro, não foi com pouca surpresa que me vi envolvida pelo encontro, pelos encontros – a celebração foi marcada por um clima de cordialidade e muita conversa.

Na sexta-feira, os primeiros a chegar a Pindamonhangaba foram o casal Wellington e Maria Alice, Tom e Luci. Recebidos por Fábio e Marita, eles deram início às atividades com uma visita à cidade, onde puderam conhecer o Museu Municipal. No sábado pela manhã, juntaram-se ao grupo os demais participantes. Da casa de Fábio e Marita na cidade, após os primeiros papos da chegada e já preparados para o almoço, dirigiram-se todos em comboio para um local ao pé da Serra da Mantiqueira. Com trutas pescadas na hora dispostas em uma grande mesa, todos compartilharam a refeição e puderam ali, ao redor da mesa, aproximar-se. Alguns só se conheciam por e-mail, outros não se viam há anos e outros ainda, como eu, tinham ali a oportunidade de se confrontar e se confortar com muitos novos rostos e vozes.

Comboio perdido – Depois do almoço, mais uma vez em comboio, o passeio seguiu para Nova Gokula, uma área mantida por representantes da religião Hare Krishna. Embora chuviscasse, o clima continuava caloroso. A busca pelo sorvete perfeito, uma das iguarias comercializadas em Nova Gokula, deixou espaço para conversas com moradores da comunidade Krishna, reflexões sobre religiosidade, fé, caminhos. Os descaminhos tomaram parte na saída da comunidade, momento em que os carros do comboio perderam-se (ou melhor, dois dos três carros perderam-se do seu guia). O hilário momento, no qual esperar na estrada era a única alternativa, não tirou o humor e ainda permitiu um aliviado reencontro.

Aproximadamente meia hora de estrada sinuosa e paisagem muito verde e chegamos ao recanto que Fábio e Marita nos reservavam. O sítio do casal, nosso abrigo daquela noite e do dia seguinte, foi um verdadeiro presente. Do deque onde deitados em confortáveis redes podiam ver o rio que corria, Débora e Mafê aproveitaram para meditar um pouco. Outros também passaram por ali para contemplar, silenciar, aquietar. O convite para conhecer a cachoeira – sim, ainda havia uma cachoeira – atiçou o espírito de alguns. Débora, Roberto e Lílian, além , mais uma vez, dos incansáveis Fábio e Marita, lançaram-se à água gelada. As outras mulheres, sentadas na beira do rio, sentadas sobre cangas, mais pareciam personagens de um quadro bucólico-tropical. A exuberância fantástica do lugar anunciou a chegada da noite com o agito do preparo do jantar. Agora, era a hora de ir para a cozinha.

Tom mostrou sua imensa habilidade de chef, coordenando os trabalhos e dando um toque especial à salada. O macarrão ao sugo teve ainda o toque das mãos habilidosas de Maria Alice e Marita. A cozinha, cumprindo seu papel de espaço gregário, ficou pequena para tanto vai e vem, conversas múltiplas. A vitrola ganhou o seu vinil e a celebração ficou assim, com um clima de festa. Um brinde completou o momento.

Noite de João Gilberto – Ainda nesta noite, todos foram agraciados com o relato de viagem da Mafê, uma tocante descrição de como encontros com o outro são capazes de nos transformar e nos encher de inquietude. Quando Mafê falou sobre um menino palestino que conhecera, cheio da beleza do espírito humano, de resistência de quem quer existir e se expressar, a comoção singela chegou a todos como um abraço. E a noite continuou com muita música boa e uma verdadeira ode à música brasileira e um dos seus gênios, João Gilberto. Na mesma noite despediram-se do grupo Tom, Maria Alice, Wellington e Luci, que retornaram a Pinda de onde, na manhã seguinte, partiriam para suas casas.

Na manhã de domingo, Débora, Mafê, Andréa e Roberto compartilharam cafés e chás trocando muitas idéias sobre como criar suportes e mecanismos para a manutenção e a expansão do Servas no Brasil. Descanso, mais rede, mais papo, uma passada em Pinda e hora de partir. Para esta que vos escreve e mais uma vez se apresenta, uma experiência acalentadora e revigorante, capaz de restituir aquela frágil parcela de fé nas pessoas e no que os encontros de diferenças podem proporcionar. Quando dois querem, dois trocam. E o mesmo pode acontecer com mais de dez. Esteja o conflito eminente ou não, concorde-se ou não, compartilhe-se ou não dos mesmos pontos de vista. O desafio do convívio é fascinante. Gratidão grande por integrar esta rede e desejo de ingressar nela de fato.

Assim se iniciaram as comemorações pelos 60 anos de Servas, no encontro em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Um pontinho concreto e reluzente na construção da paz.
-- Deca Pinto, Servas - SP

REVELANDO O MUNDO

Durante 23 anos, recebi 200 viajantes e visitei cerca de 100 anfitriões pelo Servas. Pouco a pouco, tornou-se um hábito abrir as portas da minha casa para o mundo e ser recebido por ele, na casa de pessoas que acabava de conhecer. Sou grato a todos com quem fiz essa troca. Como coordenador do Servas Brasil, sempre procurei aproximar integrantes de diferentes regiões do país e incentivá-los a se tornar líderes para ajudar a fazer o grupo crescer. Meu objetivo é sentir que os brasileiros conseguem se articular nesse imenso país. Quanto mais fortes e dinâmicos formos, mais oportunidades de encontros teremos. E mais contribuiremos para o ideal de união do Servas.
Fiquei tocado com a mensagem de agradecimento de Virginie Leveque, uma viajante da Guiana Francesa que esteve em São Paulo no ano passado, depois de rodar durante seis meses pela América Latina. Virginie foi recebida por integrantes do Servas e do Hospitality Club, e citou o nome dos anfitriões de todas a cidades onde ficou, referindo-se a cada um com uma palavra de carinho. O estado de Fortaleza, a cidade de Pomerode, a capital de Buenos Aires, os amigos Consuelo, Eduardo e Rebeca, entre tantos outros lugares e pessoas, foram minuciosamente lembrados. Para Virginie, a América Latina revelou surpresas. Abriu-lhe os braços. É assim que o Servas precisa continuar existindo. Revelando o mundo a seus participantes. E fazendo com que nos revelemos para o mundo.


-- Roberto Borenstein,
Secretário Nacional

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Bentornata e transformada! SYLE 2008 no sul da Itália

Quando organizava minha viagem para a Itália, no final de outubro, cheguei a estudar frases básicas como “come ti chiami?”, “come stai?”. Quase um mês depois, convivendo com minhas queridas famílias italianas, me atrevi a escrever um texto em seu idioma sobre minha experiência no SYLE (Servas Youth Language Experience) – parcialmente traduzido aqui. Claro, parte da ousadia foi para tentar expressar no idioma local o prazer de conhecer uma cultura tão rica e divertida como a do sul da Itália.

Minha emoção começou quando o argentino Pablo Chufeni, responsável internacional pelo programa jovem do Servas, confirmou minha presença no SYLE italiano. Cheguei a chorar ao ler o e-mail! Para quem pensava em viajar para a Europa em dois ou três anos, a idéia foi bem adiantada. De repente, me vi com dois meses pela frente antes de atravessar o Atlântico.

O Servas oferece a oportunidade de conviver com pessoas que querem dividir sua casa, a convivência familiar e o modo de vida. Mais do que isso, o SYLE oferece um mergulho pelas cidades e a cultura de cada lugar visitado na companhia de moradores locais. É também por causa desse perfil não turístico e pela proposta de conhecer lugares não famosos nos guias de viagens internacionais que estive em Bari.

Como meu vôo estava marcado para chegar em Roma, não pude resistir a conhecer um pouco dessa cidade fantástica, encravada no meio de (e sobre) prédios e ruínas milenares. Por quatro dias, fui acolhida como uma filha na casa de Francesco Tosetto e Patrizia Amore, que moram em um bairro lindíssimo, cheio de árvores e grandes casas. Tivemos um ótimo jantar com seu amigo e vizinho argentino, quando conversamos sobre cinema brasileiro e a origem da língua portuguesa.


Saindo do aeroporto, meu primeiro café da manhã na Itália, com Fabrizio

Na companhia de Fabrizio Sforna, meu primeiro professor de italiano (afinal, foi ele quem me ensinou as primeiras palavras, as primeiras falas e as frases não tão básicas que eu já tinha aprendido em um livro de italiano que um amigo emprestou), fiz passeios noturnos pelo centro histórico de Roma. Comemos panino e bebemos birra (cerveja), que é para não perder o costume. Mas também admiramos juntos a bela paisagem dos recantos romanos, como a isola Tiberina, situada no meio do Rio Tibre, à noite. Fabrizio é um apaixonado por sua cidade, o que facilita um desfrute ainda melhor da viagem. Sentirei falta do suntuoso Coliseu, do extravagante Panteão e das ruínas do Fórum Romano.

Assim que cheguei em Puglia, onde passei três semanas para realizar as atividades programadas para o SYLE, passei o primeiro fim de semana em Polignano e Mare, a cidade do músico Domenico Modugno (da música “Volare ôô, Cantare, ÔÔÔÔ!”), cheia de pequenas ruas, belos prédios de pedra branca e uma vista diviníssima para o mar Adriático, cada vez mais próximo do Mediterrâneo. Estive hospedada na casa de Angela Pirrera e Franco Torres, um casal muito simpático. Angela é inglesa, mas vive há mais de 30 anos na Itália. Ela me ensinou a tomar chá preto com leite. Amei! E também faz uma torta de maçã dos deuses. Inesquecível! Bem, ali começou a comilança italiana. Pão, diversos tipos de queijo, saladas variadas e peixe fresquinho, recém-pescado por Franco, que levantava às 4 horas para ver o sol nascer no seu barco “Inglesina”. Na volta à Bari, nos encontramos com Francesca na casa de Orazio Leggiero, namorado de Lavinia Cozzi, que ofereceu um almoço. Mais e mais comida. Delicioso!

Francesca, minha disciplinada mamma italiana, entoava seu mantra budista todas as manhãs, ao lado meu quarto

Tive dias memoráveis com os Servas de Puglia. Roberto Capezzuto foi meu professor oficial de italiano durante duas semanas, todas as manhãs. Francesca Anaclerio, a organizadora do SYLE em Bari – e também minha mamma italiana, que não me deixava sair de casa com os cabelos molhados --, preparou um jantar para me receber, cheio de amigos de diversas partes do mundo, como Cuba, Irlanda e Argentina.

O povo não parava de ligar para a Francesca para me fazer convites. Geralmente, incluíam comer! Anna Ravalese preparou um almoço em sua casa, situada perto do mar barese. A jornalista Filli Albenese me apresentou o centro histórico de Bari, onde visitei um dos castelos medievais construídos por Frederido II. A jovem Valeria me levou para um vilarejo chamado Torre e Mare, onde conheci sua família, e depois para um jantar com seu namorado Mirko e amigos. Provei da boníssima pizza napolitana-baresa da Casamassima, um outro vilarejo.

Carolina, brasileira, e seu noivo Massimo, italiano, conheceram-se no Servas.
Ao fundo, Luca, filho de Francesca


A agenda cultural foi intensa. Assisti ao ensaio do grupo musical Farauala, que preza pela voz como instrumento musical e valoriza diferentes idiomas e dialetos. Duas das cantoras estudam a língua portuguesa. Acompanhei também um concerto de música clássica na Basílica de São Nicola, patrono de Bari e também inspirador de Santa Claus, o nosso Papai Noel. Estive também na Pinacoteca da cidade com Capezzuto e assisti a dois filmes sobre a pizzica – uma dança tradicional salentina muito praticada no verão – com a brasileira Carolina Borghi. Ela me fez conhecer o Osservatorio Sud, uma associação que se ocupa de estimular os cidadãos comuns a pensar e discutir soluções para o uso racional da água em Bari.



Com Alicia em Alberobelo, em frente às trulli, casas agrícolas feitas de pedra

Durante um fim de semana em Carovignio com a conterrânea Alicia Kostenbaum – que nasceu na Argentina, mas viveu durante 25 anos no Brasil e agora vive há três na Itália – tive um dos meus melhores jantares: uma mesa plena de antepasto, com beringela, queijos, saladas, carnes e, é claro, um vinho para acompanhar. Também passeamos por Ostune, a cidade branca, e Alberobello, onde há as trulli, pequenas casas medievais em formato de cone, feitas de pedra. Provavelmente, eram moradas de agricultores. O senso de humor latino americano de Alícia me deu saudades do Brasil.

Carlo e Marina, meus avós italianos. Ativíssimos, vão todos os dias à universidade

Marina Boccianti e Carlo Battista foram meus avós italianos! Lindos, carinhosos e interessados na cultura brasileira. Durante uma semana, desfrutei de deliciosos almoços, com massa, minestrone, azeite de oliva, pães e queijos e vinho, tudo organizado pela talentosa Marina. Tivemos conversas animadas sobre culinária, costumes e política. Graças à paciência do meu “bravo” professor Roberto, pratiquei o italiano com todos os meus anfitriões (e todos eles me ajudaram muito, sempre me corrigindo e ensinando novas palavras!).

Em uma cidade famosa pela arquitetura barroca, Lecce, situada no taco da bota do mapa italiano e também em uma região conhecida como Salento, vivi a simplicidade bucólica do campo hospedada em uma masseria (casa agrícola típica da região nos anos 1700, grande e situada em meio a vastos terrenos e plantações). Nela, moram o casal Cecilia Mafei e Stefano Todisco. Ela, atriz; ele, musicista, têm a casa sempre cheia de amigos, poesia e música. Como fazia muito frio e chuva no fim de semana, acendemos duas lareiras para esquentar a imensa masseria. Também participei de um almoço tradicionalíssimo no sul da Itália, com as vovós, os filhos e os netos, em uma mesa enorme. Ao todo, em cerca de 30 pessoas.

Celícia me apresentou seu grupo de teatro e o diretor alemão, que fala muito bem o italiano. Também estive com Cecilia e Stefano em uma festa cheia de artistas, para comemorar o aniversário do espaço cultural onde fica o grupo de teatro dela.

Com Stefano, Cecilia e Caroline, minha amiga francesa


Os dias em Lecce foram muito especiais também porque pude reencontrar uma amiga francesa Caroline Capgras, que conheci durante minha viagem na Amazônia, no ano passado. Ela fez a trajetória Orlèans-Paris-Bari-Lecce especialmente para me ver. E foi muito bem recebida por Francesca, Cecília e Stefano, que quiseram conhecê-la e convidaram-na para ficar comigo quando falei de sua vinda. Foi um gesto muito generoso (sem palavras...).

Conheci Gallipoli, uma cidade de nome grego situada próximo a Lecce. Na volta para Bari, parei em Brindisi para mais um concerto de música clássica. E para fechar minhas três semanas em Bari com chave de ouro, organizamos uma noite brasileira, onde fiz uma pequena mostra das minhas fotos da Amazônia, com direito a tradução simultânea! Tive mais um jantar na casa do meu último anfitrião, Roberto Capezzuto, antes de embarcar para Catânia, na Sicília.

Roberto Capezzuto, Valentina (abaixo) e Heloísa! Sua linda família. O Gabrieli, de três anos, já estava dormindo. Esse menino sapeca corrigia o meu italiano com muita propriedade!


Roberto e Lavinia me acompanharam até o embarque para Catania e esperaram meu ônibus sair até o último minuto. É muito amor!

Laura Licari, outra jovem Servas, organizou também um jantar de boas-vindas em Catania. O povo do Servas marcou presença! Isso que eu só ficaria por lá por um fim de semana! Na companhia de Laura e seus amigos, conheci o centro histórico de Catânia, as ruínas datadas de a.C., os castelos medievais e a vista inesquecível para o Mar Jônico, um braço do Mar Mediterrâneo. No domingo, subimos cerca de mil metros do vulcão Etna (são mais de 3 mil metros, no total), de carro e a pé, para ver mais de perto seu pico branquinho de neve.

Com a turma do Servas da Sicília, no jantar de boas-vindas. Eu e Laura, logo à frente

Em meu último dia na Itália, que seria dentro do aeroporto de Roma por praticamente 10 horas, uma surpresa: Fabrizio, meu primeiro professor informal de italiano e grande companheiro de passeios, me pegou no aeroporto para almoçar. Passamos a tarde juntos, comemos pasta com frutos do mar e conversamos muito em italiano. Fiquei feliz porque, desta vez, Fabrizio me compreendia bem e não precisou usar o inglês. Nem eu!

Gostei muito de ser convidada para participar do primeiro SYLE na Itália. Estive muito longe do meu país, mas próxima de pessoas queridas, que me trataram como uma velha amiga. Agradeço à Francesca Anaclerio, sempre disponível e afetuosa, pela impecável organização do SYLE. Também sou grata à Lavinia Cozzi, que me levou de lá para cá com seu carro nos momentos que foram necessários; ao Roberto, pelas duas semanas intensas de lição de italiano; à Carolina, que conseguiu um belo lugar para fazermos a última “serata” italiana, com a exposição de fotos; e a todos os meus anfitriões, pela belíssima receptividade durante o SYLE.

Novembro de 2008 permanecerá na minha memória como uma das melhores experiências de vida, de troca de conhecimentos e de aceitação do outro. Espero por todos no Brasil, de braços abertos!

Grazie!

Débora Didonê Sanches, São Paulo, Brasil

domingo, 15 de junho de 2008

Descontração, bate-papo, histórias e fotos

Em pé: Andréa Assis, Paulo Rosa, Elizabeth Tedeschi, Welington Santos e Yvone Gomes Rosa. Agachados: Roberto Borenstein e Ana Claudia Gomes Monteiro. Tirando a foto: Débora Didonê. Além das margens da imagem (por que foram embora antes ou chegaram depois): Ayr Chaves, Alvany Maria dos Santos Santiago, Jefferson Rubbo, Marina Maluly Pacheco e Marcia Takano.

As portas de Andréa Assis abriram-se novamente para os Servas paulistas no dia 1 de junho -- e com a mesa da sala repleta de novas delícias. Desta vez, tivemos uma visita especial de Alvany Santiago que, vinda diretamente da cidade pernambucana de Petrolina (a cerca de 700 quilômetros de Recife e 500 quilômetros de Salvador), brindou-nos com descrições e histórias locais, comparando-a com a vizinha baiana Juazeiro, situada na margem oposta do Rio São Francisco. Professora universitária, Alvany instalou-se com a filha Vivian em Petrolina depois de morar em diversos lugares no Brasil e nos EUA.

Contamos também com a presença de Elizabeth Tedeschi, nova anfitriã paulistana. Em questão de minutos os novos membro da organização se misturaram aos antigos e recentes e deram boas risadas. Eu, Débora Didonê, aproveitei para mostrar as fotos da Amazônia, onde conheci meu primeiro day host, Jander Nascimento, atual coordenador da organização em Manaus. Por mais que estejamos em contato pela internet, o segundo encontro do ano mostra o quanto é importante termos a oportunidade de trocar informações sobre o que fazemos no Servas, quem recebemos, quem visitamos, que idéias temos a acrescentar para que os viajantes se sintam mais inteirados da cultura brasileira e paulista. Também é a oportunidade para que apresentemos nossos visitantes a outros membros. E vamos ao próximo. Fiquem atentos!

-- Por Débora Didonê

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Da terra da rainha para o Brasil

Estes são alguns exemplos de relatos de viajantes ingleses que estiveram aqui pelas terras brasileiras. Os textos foram extraídos do informativo mensal do Servas International, edição de março deste ano.

Brazil, learning
We stayed with Roberto in Sao Paolo who was an excellent host in this very hectic city. He was knowledgeable about Servas and the very vast moving history of the town. Certainly an insight that would have been unavailable any other way.
Hannah also stayed with André in Rio Grande do Sul, his first guest! This area was totally unlike the metropolitan distracts and once again the host was key to learning how it all works.
R Boyle, H Dee, Leeds, England

Brazil 2
São João del Rei: Tom and Marcia went out of their way to spend time with us, showing us much of the local area as well as introducing us to other friends. Last be not least, the food from Tom's own garden was great!
Rio de Janeiro: At very short notice (1day) Jürg invited us to spend 24 hours on his small-holding in the mountains. He introduced us to his philosophy of eating only raw fruit and vegetables (virtually all home grown)
C Allen, Buxton, England

domingo, 11 de maio de 2008

Vem lá da África

O relato a seguir, em inglês, foi enviado pela editora do Servas International Newsletter, Jane Guilffould, para sabermos o que a organização tem feito lá no outro lado do Atlântico -- mais precisamente, na África. Boa leitura!

Servas in Africa Meets in Zambia

Between 6 and 10 of December 2007, 27 people from 6 countries in Africa met for an Africa Area Meeting (AAM) in Livingstone, Zambia. We were hosted by nine Servas members in the city above the “Smoke that Thunders” (Victoria Falls). Besides a large contingent from Lusaka and Livingstone, five participants came from Botswana, three from Malawi and one from South Africa. All these Servas members travelled overland by road, by bus or in cars. In addition two delegates were able to fly in, one from Uganda and one from Brazzaville (Congo) in Central Africa. Missing were delegates from Namibia, Kenya, Mauritius, Tanzania and Ethiopia, in East and Southern Africa, who had originally planned to attend. No participants from West Africa were able to make it.There was a welcome guest from Servas Britain. The AAM noted with regret that Demelza Lewis Benbow, Malawi, was unable to be present but congratulated her on her new son, Taron.

Over the four days the diverse group played start-up games led by Malawi, and covered a long agenda beginning with the 18 pages of minutes from the last Area Conference in Malawi in 2003. Items for consideration included the history of Servas, twinning, Servas areas in Africa, country reports, administration of national groups, reports from travellers and people hosted, communication issues, finances, the future and evaluation. The evaluation was very positive. The Zambian hosts were congratulated, particularly Clare and Vimbi Mateke, at whose home we met.

Each delegate had a folder of documents in advance that was more than 28 pages long. Chairperson and recorders were rotated. Minutes will be available in early 2008. The gathering did recommend to Servas International that the areas in the continent of 54 countries in the future be three: West Africa, North Africa and Eastern and Southern Africa (and not the current Anglophone/ Francophone Africa). Members were encouraged to use FaceBook to post notices and exchange information on Servas activities. There was time for excursions on different days to the Falls, a National Park and the Livingstone Museum. In conclusion on Sunday evening there was singing and dancing, with the Congolese cha-cha-cha being ranked tops.

The following were elected unanimously by National Secretaries. E&SA Coordinator, Sheldon G. Weeks (Botswana); Deputy Coordinator, Clare Mateke (Zambia); Youth Coordinator, Chris Misuku (Malawi); E&SA Host-list Coordinator, Christine Fischer (South Africa); E&SA Newsletter Coordinator; Cathy Chikabadwa (Botswana); and E&SA Web page Coordinator, Rey Joseph (Mauritius) (not present, but agreed to continue in this position).

-- Sheldon Weeks, Botswana

Africa in Action
As well as the Africa Area meeting, representatives from Africa have been taking part in other meetings. Here are some of them: Local meetings in the new West African members of Ghana, Sierra Leone and Cameroon. Peace meeting in Ghana reported by Yama Sellaisse Ababio in Servas Monthly News (June 07). Youth event at Dalesbridge, England in July and August had the pleasure of welcoming Moses Kigozi from Uganda and Mary Boloweza from Malawi.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Claudia, a érrepê do Servas

Cláudia, em pé, ao lado da viajante Virgine

Enquanto o marido se preparava para uma pós-graduação na Bélgica, a porto-alegrense Claudia Joenck Cayres Pinto tentava encontrar uma organização internacional naquele país, cujos membros o acolhessem e apresentassem a cultura local. Chegou o dia de ajudá-lo a arrumar as malas, e nada. Ao embrulhar alguns itens frágeis da viagem com folhas de jornal, leu a notícia do encontro, no Rio de Janeiro, de uma organização pacifista, chamada Servas. Ligou para o editor do jornal atrás do contato do grupo e conseguiu, com o fotógrafo da matéria, o telefone de Sandra Vigna, a fundadora do grupo no Brasil. Foi ela quem entrevistou o marido de Claudia, no Rio, horas antes do vôo para a Europa. “Fiquei impressionada com a boa vontade da Sandra e feliz por saber que também poderia me tornar uma anfitriã”, diz. A gaúcha, de 55 anos, considera-se viajante desde os três. Mas integra o Servas desde os 31. Hoje, tem um companheiro “dois em um” para as jornadas. James Patterson, com quem casou em 2001, tem cidadania norte-americana e brasileira. As filhas do primeiro casamento, Ângela e Elizabeth, acompanham Claudia de vez em quando. Afinal, não é tão fácil ser filha de alguém tão inquieta. Claudia se move pela vida, pelo humano, e se tornou peça-chave da organização, divulgando-a pelo mundo.

Paz e hospitalidade – Em seu primeiro ano de Servas, Claudia não recebeu visitas, nem o primeiro marido conheceu ninguém na Bélgica. Ao contrário, voltou ao Brasil desapontado com o coordenador de Bruxelas, que morava a uma quadra de sua universidade, mas nunca tinha tempo para vê-lo. Sem perder o ânimo, Claudia procurou os brasileiros. Passou a ouvir histórias de viagens e divulgar o Servas por onde ia. “Eu acreditava no ideal de paz e hospitalidade que o grupo propunha”, conta. Quando conheceu Roberto Borenstein, que hoje é coordenador nacional em São Paulo, uniu-se a ele para fortalecer seus planos. “Com minhas constantes viagens, ele me deu o simbólico título de Relações Públicas”, conta. Embora a função não exista na organização, Claudia a exerce muito bem. Em 1993, ajudou a distribuir e confeccionar camisetas, fez reuniões no Rio Grande do Sul e até aproveitou envelopes usados para reduzir os custos. Ela sempre teve o dom de usar os recursos disponíveis para facilitar o contato com membros internacionais. Quando foi diretora de uma empresa de importação e exportação, há oito anos, aproveitou viagens de trabalho para divulgar o Servas. Visitou a coordenadora sul-americana Marisa Contini, em Montevidéu, e passou a conhecer e ser conhecida por secretários internacionais interessados em expandir o grupo. “Os membros do Paraguai se tornaram uma extensão da família e contamos os dias para revê-los até hoje”, diz. Também tem boas lembranças do Chile, de onde recebe muitos hóspedes; da primeira conferência internacional, na Austrália; da Guatemala e da Tailândia; do escritório de Nova Iorque, onde trabalhou como voluntária e organizou encontros quando visitou os Estados Unidos.

“Primos no mundo todo” – Seus primeiros visitantes, o casal Gabi e Bat Sheba Barshi, de Israel, foram por ela visitados. “Digo que tenho primos no mundo todo e viajo para revê-los ou conhecê-los”, conta Claudia, que já passou por 20 países em busca dos “entes queridos”, incluindo Egito e Nova Zelândia. A primeira anfitriã, Helga Smith, de Nova Iorque, guardou em Claudia uma das melhores lembranças do bem que os membros do Servas querem um ao outro. “Em 1995, sem nem me conhecer, Helga cedeu o quarto e a cama e dormiu no sofá da sala para que eu tivesse conforto depois de nove horas de vôo”, lembra. Helga foi sua madrinha de casamento, assim como outros amigos membros do Servas. A organização passou a fazer parte de sua vida, nos momentos bons e nos ruins também. Quando precisou tratar um câncer de mama, recebeu visitas inesperadas. “Vieram dos Estados Unidos e do Paraguai para passar longas temporadas comigo e meu marido, em Porto Alegre”, conta. “Foi um dos fatores determinantes para a minha recuperação”. Para Claudia, a troca de culturas e nacionalidades e humana proporcionada pelo Servas é uma maneira de construir a paz no mundo, a boa vontade e o entendimento entre os seres. “E abre caminhos jamais imaginados”.

- - Débora Didonê